MORTALIDADE POR TRANSTORNOS ALIMENTARES NO BRASIL: ANÁLISE ECOLÓGICA DE FATORES ETÁRIOS, RACIAIS, REGIONAIS E DE GÊNERO (2019-2023)
Palavras-chave:
Saúde Mental, Bulimia Nervosa, Anorexia NervosaResumo
INTRODUÇÃO: Os transtornos alimentares são distúrbios psiquiátricos graves, com alterações nos hábitos alimentares. Essas condições são associadas a elevada morbimortalidade, principalmente por doenças cardiovasculares e suicídio. No Brasil, registram-se em média 36 óbitos anuais, com forte influência de fatores raciais e socioeconômicos nos desfechos. OBJETIVO: Analisar a mortalidade associada aos transtornos alimentares no Brasil entre 2019 e 2023. METODOLOGIA: Trata-se de um estudo ecológico, observacional e retrospectivo, baseado em dados secundários do TabNet/DATASUS (SIM) pelo Painel de Monitoramento da Mortalidade (CID-10: F50). As variáveis analisadas foram número absoluto de óbitos e Taxas de Mortalidade (TM) por 100.000 habitantes, segundo distribuição temporal, diferenças regionais, sexo, faixa etária e raça/cor. A análise foi conduzida no GraphPad Prism 9 com estatística descritiva para cálculo e comparação dos indicadores epidemiológicos. RESULTADOS E DISCUSSÃO: A análise descritiva mostrou que 47,5% dos óbitos por transtorno alimentar (2019–2023) ocorreram entre pardos. O Nordeste concentrou 49 mortes, seguido do Norte (18), Sudeste (10) e Sul (4), sugerindo padrões regionais e raciais possivelmente ligados a desigualdades sociais e barreiras de acesso à saúde. A maior taxa de mortalidade ocorreu em ≥80 anos (30,47/100 mil), seguida por 70–79 anos (5,77/100 mil) e 30–39 anos (2,05/100 mil); as demais faixas ficaram <1,0/100 mil, indicando concentração entre idosos muito longevos, com fragilidade imunológica, comorbidades e diagnóstico tardio. Houve discreto predomínio masculino (46), divergindo da literatura que aponta maior prevalência feminina, o que pode refletir subnotificação, invisibilidade clínica, estigma e pressões estéticas não captadas pelos sistemas de vigilância. Nos testes estatísticos, verificou-se associação significativa entre faixa etária e mortalidade (p=0,0017), mas não entre região (p=0,285) ou raça/cor (p=0,769), apesar da tendência descritiva. Esses achados, limitados por subnotificações e campos incompletos, reforçam a influência de determinantes sociais e estruturais na mortalidade por esse transtorno. CONCLUSÃO: Entre 2019 e 2023, a mortalidade por esse distúrbio no Brasil revelou a influência de desigualdades sociais, regionais e raciais, além de fatores clínicos. O envelhecimento, comorbidades e acesso limitado a cuidados especializados foram agravantes. Embora sem associação estatística, a concentração de óbitos entre pardos e nas regiões Norte e Nordeste sugere impacto dos determinantes sociais, e o número elevado de mortes em homens indica invisibilidade clínica. Os resultados reforçam a necessidade de aprimorar a vigilância epidemiológica, qualificar registros e ampliar políticas públicas de prevenção e cuidado, com ações sensíveis a raça, território, idade e gênero. Ademais, é necessário o incentivo a pesquisas que aprofundem a compreensão desses determinantes.
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Referências
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