DO TERRITÓRIO AO AMBULATÓRIO: A ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE COMO PORTA DE ENTRADA PARA O CUIDADO EM SAÚDE MENTAL.
Palavras-chave:
Saúde Mental, Transtornos Mentais, Epidemiologia AnalíticaResumo
INTRODUÇÃO: Historicamente, as instituições voltadas ao cuidado da psique eram caracterizadas por um modelo hospitalocêntrico de caráter excludente. Com o marco da Reforma Psiquiátrica no Brasil e a implementação da Lei 10.216/2001 houve o fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) e a mudança no modelo de tratar a saúde mental, de maneira que esse se tornou mais inclusivo e humanizado. Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS) ganhou maior importância como mecanismo estratégico, haja vista seu papel imprescindível no primeiro contato com o paciente e na detecção, profilaxia e tratamento de psicopatologias. OBJETIVO: Descrever o perfil sociodemográfico, clínico e terapêutico de pacientes encaminhados da APS a um ambulatório de saúde mental adulto integrado a um centro universitário. METODOLOGIA: Trata-se de um estudo retrospectivo, descritivo e quantitativo, com pacientes maiores de 18 anos, com consentimento informado por escrito, encaminhados da APS ao ambulatório de saúde mental de uma clínica universitária, entre junho/2015 e outubro/2023. Os dados foram analisados no software Epi Info, com IC95%. RESULTADOS E DISCUSSÃO: No período analisado, 18 pacientes foram encaminhados da APS ao ambulatório de saúde mental. Destes, 55,5% do sexo feminino, com faixa etária entre 36 e 59 anos (50,0%), sendo 72,2% encaminhados da UBS e 27,7% de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). A maioria compreendeu indivíduos da população negra (pretos e pardos, n = 6), de baixa escolaridade (55,5%), com profissões informais ou de baixa renda (44,4%). Da amostra total, 44,4% possuíam diagnósticos prévios, ao passo que 61,1% (n = 12) já faziam uso de terapia farmacológica. Após atendidos, 37,5% mantiveram seu diagnóstico anterior e, aliados a novos diagnósticos, as principais patologias corresponderam a transtornos de ansiedade (44,4%), seguidos de transtornos neurológicos e cognitivos (27,7%) e transtornos de humor (16,6%). Quanto às condutas, a principal farmacológica foi ISRS (55,5%) enquanto a não farmacológica foi o encaminhamento à psicologia (33,3%), seguido do encaminhamento à neurologia (11,1%). Após a análise de dados, nota-se que o fluxo de encaminhamento da APS à clínica integrada está em consonância com a Reforma Psiquiátrica e a RAPS, propondo desospitalização e cuidado centrado no indivíduo. Neste sentido, as Unidades de Saúde da Família (USFs) se mostram essenciais, pois exigem profissionais capacitados, com escuta qualificada e intervenções adequadas. O alto número de prescrições antes do encaminhamento reflete ainda a persistência do modelo biomédico especializado e centrado na doença, reforçando a necessidade de ampliação e valorização da abordagem longitudinal e interdisciplinar. Por fim, a prevalência de transtornos mentais em mulheres negras e de classes socioeconômicas desfavoráveis está de acordo com a literatura, evidenciando a relação da saúde mental com os fatores biopsicossociais. Isso reforça a necessidade de abordagens voltadas para o atendimento acolhedor, livres de preconceito de gênero, classe social e raça. CONCLUSÕES: Este estudo reforça a APS como porta de entrada estratégica no cuidado em saúde mental, desempenhando papel fundamental na identificação precoce, manejo inicial e encaminhamento adequado dos pacientes. Neste sentido, o perfil epidemiológico traçado dos encaminhamentos para a RAPS teve, como predomínio, mulheres, de baixa escolaridade, com profissões informais e diagnósticos mais frequentes de transtornos mentais ansiosos e neurológicos, com parte já em uso de psicofármacos. Dito isso, torna-se essencial reiterar a atuação ativa da APS na linha de cuidado, com o fortalecimento de estratégias como o matriciamento, a formação continuada e o trabalho em equipes multiprofissionais podem ampliar a resolutividade, a integralidade do CAPS com a APS, em harmonia com os princípios da Reforma Psiquiátrica.
Downloads
Referências
1. Barretto RS, Figueiredo AEB. Estigma e violência na percepção dos profissionais de saúde mental de uma unidade psiquiátrica em hospital geral. Cad Saude Colet [Internet]. 2019 [citado 2025 ago 31];27(2):124-30. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.phpscript=sci_arttext&pid=S141462X2019000200124&lng=en
2. Pires JF, Resende LL. Um outro olhar sobre a loucura: A luta Antimanicomial no Brasil e a lei nº 10.216/2001. Cad Esc Dir Rel Int UniBrasil [Internet]. 2016 [citado 2025 ago 31];2(25):34-47. Disponível em: https://portaldeperiodicos.unibrasil.com.br/index.php/cadernosdireito/article/view/3062
3. Brasil. Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Diário Oficial da União [Internet]. 2001 abr 9 [citado 2025 ago 31]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10216.htm
4. Frateschi MS, Cardoso CL. Práticas em saúde mental na atenção primária à saúde. Psico (Porto Alegre). 2016;47(2):159-68.
5. Hiany N, Vieira MA, Gusmão ROM, Barbosa SF. Perfil epidemiológico dos transtornos mentais na população adulta no Brasil: uma revisão integrativa. Rev Enferm Atual Derme. 2018;86(24).
Publicado
Edição
Seção
Categorias
Licença
Copyright (c) 2025 Elnatã Pereira Alves, Juliana Vidotti de Jesus, Guilherme Garcia Peres, Maria Lúcia Clini Figueiredo, Vitória Ellen de Oliveira, Dênis Gonçalves Ferreira (Autor)

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
As licenças de usuário definem como os leitores e o público em geral podem usar o artigo sem precisar de outras permissões. As licenças públicas do Creative Commons fornecem um conjunto padrão de termos e condições que os criadores e outros detentores de direitos podem usar para compartilhar obras originais de autoria e outros materiais sujeitos a copyright e alguns outros direitos especificados na licença pública disponível em https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt_BR. Ao usar a 4.0 International Public License, a IFMSA Brazil concede ao público permissão para usar o material publicado sob os termos e condições especificados acordados pela revista. Ao exercer os direitos licenciados, os autores aceitam e concordam em obedecer aos termos e condições da Licença Pública Internacional Creative Commons Atribuição 4.0.